quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Crepúsculo da Alma

I

É assim que a mente, um penhasco desnudo,

Suporta o assalto das memórias más;

E cada fantasma que no peito acudo

Mais vivo brilha sob o olhar da paz.

A paz? Mentira ousada e fraca trama

Que a sociedade em seu peito bordou;

Minha alma é a tempestade que não doma,

O mar que consigo mesmo se agitou.


II

Caminhei entre os homens, e seu riso

Soou qual bronze falso aos meus ouvidos;

Seu amor, um breve e desbotado lírio,

Seu juízo, um laço de sentidos vazios.

Prefiro a solidão do vento uivante,

O diálogo com o abismo e a amplidão,

Do que a frágil e hipócrita constante

Que rege o baile da vã ilusão.


III

E tu, que um dia destes à minha vida

O brilho que há no olhar de um furacão,

Agora és sombra, pálida e esquecida,

Manchando o livro de minha solidão.

Teu juramento, o eco de uma sala,

Dissipou-se no ar, leve e traidor;

Minha paixão, porém, não se iguala

Às paixões que morrem com favor.


IV

Assim sigo, marcado por um destino

Que não ouso e nem posso compreender;

Um ser incompleto, um projeto divino

Que os deuses, num mau humor, quiseram fazer.

Minha herança é o ódio, a dor, a insônia,

E o ver, na face pálida da Lua,

Não a esperança, mas a mônada fria

De uma verdade que ninguém subjuga.


V

Então venham! Tormentas da noite escura,

Rochas onde o urzal sequer se agarra;

São vossas as feições da minha amargura,

É convosco que minh'alma se declara.

Pois na ruína do que o mundo inveja

—O palácio de um coração fendido —

Encontro, enfim, a liberdade alheia,

E o meu trono, no trono do esquecido.

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